Uma cenourinha verde-alface
Estou a caminho do jornal, já a manhã vai alta ou não fosse sexta-feira! Hoje adivinha-se um daqueles dias e, igualmente, uma daquelas noites… quente quente. O sol invade as ruas do Chiado. Sento-me na Brasileira para mais uma dose de cafeína que me abra as pálpebras para a vida e contemplo, de olhos a meia haste, o vai e vem de pessoas atarefadas, a massa de corpos híbridos que trazem no rosto o tédio estampado de mais um dia de trabalho, mas também a alegria ansiosa de mais um início de fim-de-semana.
E no meio desta contemplação eis que ela vem de encontro ao meu olhar… sobe a rua Garrett, a passo despreocupado, como quem não é deste mundo e apenas pretende dar ao real um pingo de satisfação. A pele clara e luzidia, tal qual fina porcelana, sarapintada aqui e ali por umas sardas deliciosas que só apetecem beijar… Sim, é uma cenourinha… longos fios de seda volumosos e ligeiramente ondeados, com laivos de fogo que lhe iluminam o rosto. Esse, nem de boneca inocente nem de sedutora endiabrada. É perfeito… sublime mistura agridoce de meninice perdida com a sensualidade feminina de quem caminha para os trinta.


À medida que se aproxima e consigo finalmente desviar os olhos do seu rosto, deixo o olhar deambular pelos pormenores do corpo. Vem de vestido verde alface (imaginem o contraste com o ruivo e o alabastro!!!), que seria discreto ou não fosse a cor e um decote, não ordinariamente acentuado mas deliciosamente provocatório. O suficiente para lhe adivinhar uns seios perfeitos por debaixo do tecido. Uma brisa inesperada revela-lhe os bicos. Numa reacção envergonhada tenta escondê-los com a mão. Mas eu já os vi e já os imagino despidos a rirem-se de contentamento.
O seu andar calmo e elegante faz o tecido colar-se de encontro ao seu corpo de formas esguias. As borboletas, essas, de cor laranja, poisam no seu vestido, aparentemente de forma aleatória mas na verdade estrategicamente colocadas: uma ao lado do seio direito, outra ligeiramente mais abaixo onde começa a barriga, outra ainda descansa em cima da anca. A maior, desterrada lá no alto, prende-lhe uma mecha de cabelo. E abanam as asas com a deslocação do ar, como se estivessem prontas para levantar voo e levar consigo aquela sumarenta flor de estio.
Por esta altura já me esqueci de mim, perdida na esplanada com o café ainda a meio da chávena. Neste espaço de tempo de breves segundos a minha mente já voa, tal como as borboletas no seu corpo. Imagino-me a beijar-lhe os ombros sardentos, aspirando o seu cheiro de menina-mulher, uma mão apertando-lhe um seio com doçura enquanto outra lhe afaga as coxas. “Podia-me dar lume?”. Desço à terra e deparo-me com ela, debruçada sobre a minha mesa de cigarro em riste. O panorama do decote é tentador. Acendo-lhe a ponta do cigarro e vejo-a sentar-se na mesa ao lado para “um café e um copo de água, por favor!”. Olha para mim com aquele ar de quem já me topou… e gostou.
Estou a adorar esta troca indecente de palavras mudas mas inevitavelmente tenho de me ir embora. Enquanto me preparo para sair ela detém-me: “Trabalha aqui no Chiado?”. Sorrio e aceno afirmativamente com a cabeça. “Venho à Brasileira todos os dias” (os olhos brilham-lhe enquanto o diz). Sorrio novamente e deixo a esplanada, não sem antes lhe dizer “então mais logo às 5 da tarde pago-lhe um café”.
Agora estou a trabalhar… estou a tentar trabalhar. Mas não consigo deixar de olhar para o relógio…